Quero falar sobre "As vinhas da ira" de John Steinbeck, publicado em 1939.
Ler esse romance hoje, talvez faça muito mais sentido do que em qualquer outro momento.
É a história de perseverança de uma família, da força de uma mãe em tomar as decisões ao longo do êxodo da família da região central dos EUA para a Califórnia em busca de trabalho, dinheiro, pão, vida.
Digo que faz muito sentido ler esse romance agora porque ele fala da grande depressão que assolou os EUA em 1929, mas também fala da perversidade de um sistema econômico cada vez mais acachapante, perverso, que empurra os pobres cada vez mais para a precariedade e para a ira que cresce pela desigualdade social a que são impostos a cada instante ao longo da narrativa.
Nós, latino americanos, brasileiros, passamos e continuamos em um "grande depressão", não exatamente como aquela, mas grande, em muitos aspectos.
A pesar da ira e da fome pela qual passa a família Joad, há algo muito forte que os move a diante que é, talvez, a esperança ou ainda, um tanto de utopia que paira sobre eles que, diante de tanta dificuldade não deixam de sonhar com terra, casa e liberdade.
Ler esse romance hoje, neste momento em que tenho terra, vivo nela e dela, abre-se uma dimensão de entendimento que passa primeiro pelo corpo como instrumento de trabalho; mas me provoca, quiçá eis aqui a sensação que fica e que vem do mais fundo, um tanto de alento - talvez possamos ainda acreditar no ser humano, principalmente na força fêmea que dá vida.
Coloco minhas esperanças em pessoas que não desistem de acreditar em sua própria força para seguir adiante - elas existem sim - e na literatura, essa arte que não cessa de me surpreender em seus laços com a realidade.
"(...) Se um homem tem um pedaço de terra, esse pedaço é ele mesmo, faz parte dele, é como ele mesmo. Se é dono de uma terra assim, pode andar nela, tratar dela, e ficar triste quando ela não produz e contente quando chove. Está sempre satisfeito, porque a terra é dele, é parte dele, é igual a ele. Mesmo que não seja bem-sucedido, ele vale muito, porque tem a terra. É assim. (...)
- Mas deixa um homem possuir uma propriedade que ele não vê nem tem tempo para cuidar dela, nem pode sentir a terra debaixo de seus pés... bom, aí a propriedade substitui o homem. A propriedade é mais forte que o homem. E ele, em vez de grande, fica pequeno. Só a propriedade é grande e ele é escravo da propriedade. É assim também."

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